Coleções

14 09 2011

Eu coleciono pilhas-palito involuntariamente. Por causa do mp3 (no me gusta Ipod), tenho várias gastas na gaveta, já que não quero jogá-las no lixo e ainda não achei um lugar perto de casa que as aceite. Também ando colecionando livros, com preferência pra literatura fantasiosa, young adult, com capas e lombadas bonitas; se for hardcover, melhor ainda (meu salário tem sérias objeções a isso, mas eventualmente chegamos a um acordo). Coleciono links de albuns e fotos legais do Deviantart.com, que por sinal é uma ótima maneira de passar o tempo. Também coleciono coisas da ilustradora Rebecca Dautremer, e já difundi esse hábito lá na livraria.

Meu irmão coleciona mp3 de bandas indie, britânicas ou qualquer outra coisa que soe underground. Que eu sempre acabo mostrando pra mais alguém, que mostra pra mais alguém, fica mainstream, vai parar na Capricho e ele acha que vai morrer de ódio. Nós dois colecionamos insultos, de preferência os criativos que acabam em risadas e “de onde você tirou isso???”. Minha mãe sempre ganha quando entra na competição. Também colecionamos fofocas familiares, amplamente divulgadas aos domingos depois do almoço.

Tenho amigos que colecionam artigos de determinado assunto, histórias de bêbado, tombos, fotografias e reclamações. Aliás, colecionar reclamações é quase um hobbie.

Coleciono problemas antigos, remoídos, remastigados e reutilizados sempre que minha cabeça descansa por cinco minutos, o que não é nada saudável, mas são ítens colecionáveis cada vez mais populares. Coleciono mais decepções do que gostaria pros meus parcos vinte e cinco anos, mas acho que esses podem entrar na categoria das reclamações. Ou dos exageros. Coleciono cadernos, cadernetas e bloquinhos que me dão angústia quando penso que provavelmente nunca vão ser preenchidos por puro bloqueio emocional. Coleciono paixões instantâneas temporárias, que por sinal são uma delícia quando acontecem, de preferência quando são unilaterais e platônicas. Coleciono rostos de pessoas que passaram pela minha vida, mas não lembro os nomes nem porquê lembro delas, mas lembro, e é isso que importa.

Com esse texto, aumento minha coleção de coisas colocadas pra fora sem revisão, sem final, despretenciosas e difícil de colocar um ponto final. Gostaria de ter um rumo pra elas, mas isso fica pra outra coleção.

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45 linhas

5 05 2011

Eu gosto de digitar no word com fonte Calibri tamanho 12. Isso contabiliza cerca de 45 linhas por página, com espaçamento normal, sem deixar espaço entre os parágrafos. Não gosto de escrever textos grandes (não nasci com o dom da prolixidade positiva), então considero 45 linhas nessa fonte e nesse tamanho mais do que aceitáveis. O problema é fazer as 45 linhas aparecerem. A idéia já aparece pronta na cabeça, inteirinha. Tem começo (do nada, que é como eu gosto de começar as coisas), meio (chega a algum lugar) e fim (aceitável pro momento). Dá pra visualizar os diálogos, se tiver algum. Imaginar a(s) cena(s). Fica lindo na minha cabeça.

Mas nenhuma linha sai. Não é bloqueio criativo, porque pelo menos 40% do trabalho já foi feito. Revisado. E mesmo assim, já tem umas três semanas que fico remoendo o que pensei. Três semanas do mesmo ritual. Sentar na frente do computador. Abrir o word. Nada. Fuçar o last.fm. Voltar pro word. Digitar alguma coisa (por alguma coisa, leia-se duas ou três linhas). Visitar sites de fofocas. Outros blogs. Word. Nada. Estorvar alguém no MSN. Word. Nada. Eu olho pro word. Ele olha pra mim. E nada.

Um lindo e absoluto N.A.D.A., isso sem considerar os momentos de ficar olhando pra tela em branco, parada, pensando por que diabos ninguém inventou ainda alguma coisa que tire as coisas da minha mente e passe automaticamente pro computador. Algo assim ajudaria muita gente. Escritores. Jornalistas. Gente escrevendo a tese do mestrado. Incontáveis pessoas seriam beneficiadas por algo assim. Rins seriam vendidos no mercado negro (ou no livre) pra pagar uma maquininha que fizesse brotar palavras. E nisso já foi quase uma hora, até que me conformo que nada vai sair, fecho o word e vou fazer qualquer outra coisa.

Não era pra ser tão difícil assim. Se tudo já está pensado, esquematizado, qual a dificuldade em só digitar? Escrever a mão não ajuda. Já tentei, e o máximo que consegui foi ficar frustrada porque não consigo desenhar bolinhas perfeitamente redondas ou porque as linhas das minhas espirais não ficam paralelas. Já tenho uma séria tendência a desistir de coisas. É só ver quando foi a última atualização aqui. Expert em começar – terminar já não é meu departamento. Também já tentei não usar o word, mas a culpa não é dele. Dos meus dedos, talvez, que com a mesma insistência com que voam pra letra U quando não quero, se recusam a funcionar. É frustrante. Se pelo menos a idéia não existisse, vá lá, teria uma desculpa. Mas ela tá aí! E quanto mais enrolo, mais a idéia não parece mais tão boa assim. Talvez o começo seja tão do nada, que não faz sentido. O meio não mostra qual o rumo que a coisa deveria ter tomado. O final ficou tonto. Os diálogos são blé. Daí pra engavetar tudo é um passo. Comportamento típico de quem desiste fácil. Ou de quem procrastina muito. Procrastinadores me entenderão.

Eu sei que Libba Bray me entende, como li agora há pouco no blog dela.

“If this part of the writing process were an iPod track list it would look like this:
Track #1: I Suck
Track #2: I’m Not Smart Enough to Write This Book
Track #3 No, This Is Different
Track #4: Maybe I Could Become a Firefighter/Gravedigger/Finger Puppeteer
Track #5: I Suck, Parts IV-VIII
Track #6: Why Can’t I Write Like (Fill in Blank)?
Track #7: This Doesn’t Happen To (Fill in Blank)
Track #8: Will You Help Me Fake My Death/It’s the Only Way/My Life in a Storage Unit Medley
Track #9: I Suck (Extended Dance Remix)
Track #10: What Was I Thinking?
Track #11: This Is Hopeless! (DJ Flail ‘N’ Whine Mix)
Track #12: So Overwhelmed I’m Underwater
Bonus Track: Also, I Hate My Hair”

Eu sei, eu não sou a Libba Bray. Se fosse, saberia como misturar alguém morrendo por causa da doença da vaca louca, uma anja punk e um anão de um jeito que fizesse sentido. Lá em cima escrevi “cerca de 45 linhas”, e o word quer corrigir a frase pra “cerca de 50”. Não consigo escrever nem 45, que dirá 50. O processo fica parecido com arrancar um band-aid. Ou parir um filho. Talvez eu devesse reservar um dia de folga só pra isso, mas usar um dia inteiro pra escrever um texto de uma página parece atingir um grau de loser que nem eu sei se deveria testar se existe. Mas agora, pelo menos, eu sei que até a Libba Bray tem sua track list de “bad writing day”. E eu sei que 45 linhas vão continuar sendo difíceis e dolorosas, mas eu não fico sozinha nessa. Tenho a Libba. E os procrastinadores. E os mestrandos. Viva nós.

 





OP, OI

17 10 2010

“Ócio improdutivo”. Piada interna, ou termo já mundialmente disseminado. Por mundialmente, entende-se a querida panela que carrego comigo há o quê?, uns… 5 anos? Por aí, não sei fazer contas. Num resumo bem simplificado, porque até hoje não aprendi a enrolar, “ócio PRODUTIVO” é pegar aquele tempinho que te sobra e fazer alguma coisa útil com ele. Improdutivo seria pegar esse tempinho que te sobra, olhar pra ele e pensar “mais tarde eu resolvo”. Ócio improdutivo, então, é basicamente fazer porra nenhuma. É? Primeiro, teríamos que delimitar exatamente o que é o ócio produtivo, porque todo historiador que se preza TEM que enfiar tudo dentro de algum contexto, nem que seja um inventado a exatamente 23:39 da noite.

Pelo dicionário, produtivo significa “que produz; fértil; rendoso”. Valeu, dicionário, esclareceu muita coisa. Produzir é procriar (mais pra frente analisamos esse), dar origem a, e paramos por aqui porque todos os outros querem dizer a mesma coisa. Pegamos esse “dar origem a”. Ócio produtivo, que chamaremos de OP, é usar seu tempo de sobra, TS, pra produzir alguma coisa. Ok, OP + TS = alguma coisa. Alguma coisa, o que? Alguma coisa útil. Útil é aquilo que pode ter algum uso ou serventia, proveitoso, vantajoso. Estabelecemos, então, que o OP é aquele estado em que você pega seu TS e faz com ele alguma coisa que sirva pra alguma coisa. É aí que entra o problema, porque até agora esse amontoado de frases explicativas, pelo menos pra mim, não são um problema.

O que poderia ser considerado como proveitoso, vantajoso ou tendo serventia? Sendo algo vantajoso pra outra pessoa, trabalhos voluntários poderiam se encaixar na categoria de ócio muito bem produtivo. Legal. Mas e quando seu tempo não é tanto assim, ou não existe a possibilidade de fazer algo nesse sentido? Você ainda tem tempo sobrando. E agora? Saímos do outro e voltamos a nós. Seria, então, algo vantajoso pra você. Outro problema: o que é vantajoso pra mim, não é necessariamente vantajoso pra você. Passar uma tarde cuidando do jardim pode ser perda de tempo pra você. Passar uma noite de sábado escrevendo um texto pode ser perda de tempo pra alguém que gosta muito de sair aos finais de semana.

Resumindo: o meu OP é o seu OI (ócio improdutivo). Gastar energia com sexo, por exemplo, resgatando o sentido de “procriar”, dependendo da situação, é OP ou OI? No final das contas, fica tudo dependendo do referencial. Trocar a cor de esmalte a cada três dias, pra mim, é algo produtivo. Traz algum efeito na minha auto-estima, por exemplo. Escrevendo textos pra RPG, é produtivo porque eu gosto de escrever, oras, e cada texto é algo criado com carinho e muitas promessas de nunca mais usar o word porque ele não reconhece meu nome. Pra muita gente, é perda de tempo. Pra mim, um jogo de futebol é perda de tempo. Pro meu avô, meus remédios é que são.

“Mas Mareska, qual exatamente o objetivo desse texto?”. Simples: mandar quem reclama do que eu faço tomar no cu. Mande você também. Se seu tempo ser classificado como OP ou OI depende do referencial, então estamos todos livres pra rejeitar o referencial alheio. Se você acha o que eu faço perda de tempo, eu não acho, e chegamos num impasse em que nenhum dos lados vai ceder; melhor deixar pra lá e sair pra comer, ou beber, depende da pessoa. E deixem meu OP e OI em paz, que quem decide sou eu; palpites não são bem vindos a não ser que eu os peça. Entendo seus argumentos, mas não assimilo, malzaê. Levanto, então, com orgulho a bandeira do meu OI, e você vá ser feliz com seu OP em algum canto longe.

E você, por onde anda seu OI?