Ela, Ele e o Felipe

11 06 2012

– Quem é Felipe?
– Que Felipe?
– Foi o que eu perguntei.
– Não entendi sua pergunta.
– Citei o nome de uma pessoa e perguntei a procedência dela.
– Por que isso agora?
– Curiosidade.
– De novo: que Felipe?
– Eu conheço todos os seus amigos.
– Sim.
– Você me apresentou pra todos eles.
– Sim.
– E esse Felipe?
– Que Felipe, homem de Deus?
– Esse que curtiu sua foto no facebook.
– Ah, o Felipe.
– É. Esse Felipe.
– Por que esse tom de voz?
– Porque eu não sei quem ele é.
– E daí?
– Por que tem homem curtindo foto sua no facebook que eu não conheço?
– Por que esse ciúme? Você nunca foi assim.
– Nunca fui assim porque sempre conheci todo mundo.
– Que bonitinho.
– O que?
– Você com ciúme.
– Que bom que meus acessos de insegurança emocional servem de entretenimento.
– Amor, tem biscate curtindo foto sua e eu nunca reclamei.
– É diferente, você também conhece todas as biscates. Se fosse alguma biscate nova, você não ia gostar.
– Então você admite que tem amiga biscate.
– …
– Pois é.
– Você ainda não respondeu a pergunta.
– Você tá ficando chato.
– Responde a pergunta que eu volto a ser lindo e espirituoso. Senão, vai se preparando. Vou beirar o insuportável. Vou reclamar no facebook. Vou dar dislike na foto.
– Não tem botão de dislike.
– Eu tenho. É um aplicativo.
– Me passa depois?
– Passo. Agora responde. Vai.
– Vai aonde?
– NÃO DÁ RISADA.
– E se for um ex namorado?
– Não é, você só tem três, e eu sei quem são.
– Você sabe tudo de todos os meus relacionamentos.
– Sei. Você me contou.
– E dos meus casos?
– Oi?
– Das minhas fodas de um dia só.
– AHN?
– Você ouviu.
– Você disse fodas.
– Disse.
– No plural.
– Sim.
– Mais de uma.
– Sim.
– Oh, God.
– Parabéns pela descoberta de que a futura mãe dos seus filhos ou filhas já fez sexo casual mais de uma vez.
– OH. GOD.
– Se acalma.
-…
– Respira.
-…
– Pronto?
-… não.
– É tão absurdo assim?
– Não…
– Então por que o choque?
-…
-…
– Porque… eu sou… um idiota?
– Bem por aí.
– Dá pra gente esquecer que isso aconteceu?
– Dá, mas primeiro eu quero saber se você entende que não tem necessidade de fazer esse tipo de cena porque você não é meu dono, não manda em mim, e que precisa confiar em mim como eu confio em você.
– Eu confio em você.
– Qual o problema então?
– Eusoubabacaetenhomedodeperderovocêpraalguémmelhorqueeu.
– Oi? Não ouvi, fala mais alto.
– OUVIU SIM, EU NÃO VOU REPETIR.
– Não precisa ter medo, tá?
– Tá.
– Tá tudo bem então?
– Tá.
-…
-… agora me diz quem é o Felipe.

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Ela & Ele e a pergunta

2 05 2012

– Esse vestido me deixou gorda?

– …

– Amor?

– Oi.

– Esse vestido me deixou gorda?

– …

– Amor…

– Oi.

– Tá bem?

– Ahan.

– Então responde a pergunta.

– … isso é uma pegadinha? Eu vou ficar sem sexo?

– Não, só responde.

– Lógico que não, amor. Qualquer coisa que você vista fica tão linda e te deixa tão radiante, que inclusive eu acho que você devia tirar esse vestido e experimentar mais, até, de tão linda e de tão maravilhado que eu fico de ter ver desfilar.

– Então fiquei gorda.

– Parece um lego.

– Espera, fiquei gorda, ou sem cintura?

– Ahn?

– Parecer gorda é diferente de parecer sem cintura.

– Lógico que não. Dá no mesmo.

– Lógico que não. Gorda é com barriga, sem cintura é… bom, peça de lego.

– Ahn… eu… não… me sinto… confortável comentando isso.

– Depois de tantos anos, acho que você já pode comentar esse tipo de coisa comigo sem medo, né.

– Nah… não… não posso, não. É.

– A gente não prometeu ser sempre sincero um com o outro?

– Ahan.

– E eu não sou sempre sincera com você?

– É… até que é.

– Então. Pode falar.

– Não vou MESMO ficar sem sexo?

– Não.

– Olha… leva em consideração que você tá grávida. Faz parte do processo um recheiozinho a mais.

– Então eu pareço gorda.

– Ahn… não… não é bem isso.

– Como não?

– Eu só atestei um fato.

– O fato de que eu estou gorda.

– Não, espera… não foi isso o que eu disse.

– Lógico que foi!

– Não… calma aí! Espera! Eu não te chamei de gorda!

– Você disse que eu pareço uma PEÇA DE LEGO.

– Não… espera! EU SABIA QUE ISSO ERA UMA PEGADINHA!

– Pode ficar calmo. Eu pedi sinceridade, não pedi? Então. É isso. Tô gorda.

– Você tá chateada?

– Não. TÔ GORDA.

– EU NÃO TE CHAMEI DE GORDA! EU SÓ DISSE QUE VOCÊ PARECE GORDA!

– POIS É!

– ESPERA! ME DEIXA RACIOCINAR!

– Tô esperando.

– …

– E aí?

– Calma. Loading.

– …

– Você perguntou se o vestido te deixava gorda.

– Ahan.

– FOI SÓ ISSO QUE EU RESPONDI! Que o vestido, ESSE VESTIDO ESPECÍFICO, salientou um pneuzinho. AÍ! TAÍ! FOI ISSO!

– Ahan. Então se eu botar outro vestido, não vou mais estar gorda?

– Ahan.

– Minha gordura vai magicamente desaparecer com a roupa certa.

– Ahan!

– Ou seja, eu tenho gordura que precisa desaparecer.

– Ahn… não, espera…

– Deixa quieto. Não quero mais comprar roupa.

– Amor…

– O que?

– Eu vou ficar sem sexo, não vou?

– Vai.

 





Ela, Ele e o tédio de domingo.

27 10 2010

– Incrível.
– Incrível o que?
– Como não tem nada decente na tv de domingo à noite.
– Nem que tivesse, você não deixa no mesmo canal mais de cinco segundos.
– Deixaria se tivesse algo decente passando.
– Deixa no Fantástico mesmo.
– Tá.
– Cerveja?
– Oi?
– Quer uma cerveja?
– Quero.
– Aproveita que você pode. Pensar que só tomo uma de novo daqui sete meses dá uma angústia.
– Quando você parir, a gente combina uma noite com a Luisa, a Bárbara e o Ricardo, só pra todo mundo ficar bêbado. Voltamos de táxi.
– Combinado. Já volto.
– Tá.
– Aqui a cerveja.
– Brigado.
– De nada.
– …
– …
– …
– O que tá passando?
– No fantástico? Algo sobre as pessoas mais velhas do mundo. Ou mais novas, não sei mais a diferença.
– Nem uma coisa, nem outra, é sobre botox, olha.
– Por isso que eu não sei mais a diferença.
– …
– …
– …
– Odeio.
– O que?
– Domingo.
– Ah.
– Marcou a consulta no obstetra?
– Marquei. Ele disse pra você ir junto. Consegui um horário que não cai na sua aula.
– Falando em aula, amanhã entrego a correção da prova e dou o discurso do bimestre.
– Por que?
– Pelos absurdos que fizeram. Teve gente dividindo por zero em conta que nem zero tinha.
– Chuck Norris divide por zero.
– Não dou aula pro Chuck Norris. Você vai no dia das profissões?
– Vou, o escritório me dispensou. Gostei do vestido dela.
– Já a camisa do cara é horrível. Como ele chama mesmo?
– Zeca Camargo.
– Discípulo do Faustão, aposto.
– E quando ele morrer?
– O Zeca Camargo?
– O Faustão. O que vai ficar no lugar? Domingão de quem?
– Eu acho que é o Luciano Huck.
– Domingão do Caldeirão?
– Domingão do Lucianão? Nem rola.
– Vão ter que mudar de nome.
– Não deve ser o Huck, senão teriam que mudar o sábado também, desestrutura toda a programação.
– Será que se eu ligar, me informam a marca do sapato?
– Acho que sim, deve ter um sac, ou algo do tipo.
– …
– …
– Ai.
– O que foi?
– Uma pontada.
– Onde?
– Aqui. Isso. Ai.
– Na consulta a gente vê. Quer ir dormir mais cedo?
– Não, bota um dvd aí. Monk.
– Ricardo pegou emprestado, lembra?
– Qual temporada?
– A melhor.
– Merda. Tem alguma outra coisa pra ver?
– Não, tem que ser o Fantástico mesmo.
– Fantástico é bem emblemático de domingo, né? Chega a dar aquela depressão ouvir a música.
– Pelo menos mudou a abertura. Aquelas mulheres tortas me davam aflição.
– Por que dá dando interferência?
– Ih, vai acabar a
– ACABOU A FORÇA!





Ela, Ele e os esmaltes vs Lakers

9 10 2010

– Santo Cristo…
– O que?
– Quanta cor.
– São esmaltes.
– Quanta coisa.
– São os materiais pra fazer as unhas.
– Quanta frescura.
– Não é frescura. Senta aí.
– Que que é esse troço no seu pé?
– É pra separar os dedos. Pra um não estragar o esmalte do outro.
– A não ser que você seja um sapo ou um pato, seus dedos já são separados.
– Shiu.
– AH, É POR ISSO QUE NUNCA TEM ALGODÃO NO BANHEIRO!
– Você quer que eu passe o removedor onde?
– Sei lá… um pano?
– Não, tem que ser algodão.
– Achei que fazer as unhas era só passar o esmalte.
– Não. Tem que deixar na água quente com o creme, empurrar a cutícula, tirar o excesso, hidratar, passar a base, esperar, passar o esmalte, esperar, passar a segunda camada, esperar, aí hidratar de novo. Pé é a mesma coisa.
– Você não tira TODA a cutícula, né? Porque faz mal.
– Não, pode deixar, só o excesso.
– Dá nervoso te ver com esse alicate no pé. Parece O Albergue. Logo tem ponta de dedo seu voando por aí.
– Você podia fazer as unhas. As suas são horríveis.
– OW! Minhas unhas são limpinhas!
– São, mas são horríveis.
– Eu não vou fazer as unhas. Homem não faz as unhas.
– Aposto que suas unhas ficariam mais limpas se você deixasse eu fazer.
– Você com um alicate nas minhas unhas? Só morto.
– Você confia em mim pra ser a mãe dos seus filhos, mas não pra fazer suas unhas?
– Não tem motivo pra fazer minhas unhas. Não é como se eu fosse pintar de alguma cor.
– Se fosse?
– Ahn?
– Se fosse. Se homem pintasse as unhas, que cor você pintaria as suas?
– Quais as opções?
– Olha aí.
– Deixa ver… por que tem três vermelhos iguais?
– Não são iguais.
– Lógico que são. Os três naquele tom biscatão.
– Não é biscatão, é vermelho aberto. E tem diferença. Esse puxa pro laranja, esse pro cereja, esse tem reflexos dourados.
– ONDE ISSO?
– Olha bem. Olha direito. Isso. Olha de perto.
– Nossa, e não é que de perto… continuam os três iguais.
– Você que é daltônico.
– Você que é louca em ver diferença entre, sei lá, esmaltes pretos.
– Lógico que tem diferença! Cada tom de preto tem um detalhe!
– TOM DE PRETO? Na minha época, preto era preto.
– E os dinossauros mal sabiam seu futuro cruel, tá, eu sei.
– Na verdade, o seu humano nunca encontrou um dinossauro ao vivo.
– Mas você vai ter os chifres de um triceratops se continuar a encher. Vem cá. Vou fazer suas unhas.
– Vai não.
– Eu tô com desejo de fazer suas unhas. O bebê tá até mexendo.
– Você tem 2 meses de gravidez, se tem algo mexendo aí, são gases ou um alien.
– Chamou nosso filho de peido?
– Ou filha. E sai daqui com esse alicate.
– Quer que a criança nasça com cara de nutribase?
– Se eu deixar, você… deixa ver… abre mão do Discovery Home&Health essa quarta. Tem jogo no Sportv.
– Mas você também gosta do Tim Gunn!
– Gosto mais dos Lakers.
– Tá, fechado. Dá a mão. Não olha feio. Pronto, coloca os dedos no potinho com água quente.
– Quanto tempo isso?
– Uns minutinhos.
– OW, VOLTA NO FILME!
– Tá, tá, pronto. Duro de Matar perdeu a graça faz tempo, sabia?
– Bruce Willis é Deus, blasfema não.
– Pronto, pode tirar. Dá a mão.
– Que troço é esse?
– Pra empurrar a cutícula.
– Vai doer?
– Não. Aí, viu? Não dói.
– Não é confortável também.
– Mas não dói. Pronto.
– TIRA ESSE ALICATE DAÍ.
– Devolve a mão, faz favor?
– De jeito nenhum.
– Só vou tirar o que ficou pra cima. Vou com calma, anda. Pensa nos Lakers.
– Lakers… Lakers… Lakers… CUIDADO COM ESSE TRECO…é bom que eles ganhem o jogo, senão vou ficar puto… VAI DOER… não doeu… falta muito?
– Calma.
– Fácil você falar.
– Já passei por isso e meus dedos ainda estão aqui. Pronto, viu? Nenhum bife arrancado.
– Bife da unha eu sei o que é. Não é legal.
– Pois é. Agora, polir.
– Oi?
– Polir as unhas. Rapidinho. Dá aqui. Pronto. Aí, dá uma olhada nelas agora.
– PORRA, não é que ficaram mais limpas.
– Viu? Falei. Se você fizer isso umas 2 vezes por mês, já tá bom.
– Não exagera. Isso é pelos Lakers e que que você tá pegando esse esmalte com cor de absinto?
– É base de fortalecimento.
– Eu não vou passar esmalte.
– Não é esmalte, é base só. Mal fica brilho, relaxa.
– Eu NÃO vou passar esmalte.
– Se não completar o ritual, nada de Lakers.
– Mas você fez minhas unhas! Ó! Feitinhas!
– Sem base, sem Lakers.
– Tá… tó… sacanagem.
– PRONTO! Olha como ficaram.
– Elas brilham.
– Limpinhas.
– E brilhantes.
– Shut up. Foi pelos Lakers. Tó, deixo até você ficar com o controle remoto hoje, de brinde.
– Deixa ver pra confirmar o jogo… MERDA!
– O que?
– OS LAKERS NÃO JOGAM NA QUARTA!





Ela, Ele e a barata

22 09 2010

– MORRE, VADIA MALDITA!
– Caramba, mal chego em casa e já sou chamado de vadia, CADÊ A VERSÃO MASCULINA DA DONA PENHA?
– NÃO É VOCÊ! É ESSA VADIA EMBAIXO DO ARMÁRIO!
– Embaixo do armário não passa nem paninho pra tirar pó, quiçá uma vadia.
– Passa se for uma vadia de 2 por 5.
– Como foi que você enfiou uma vadia de 2 metros aí embaixo???
– CENTÍMETROS, CRIATURA! Sinceramente, se o bebê nascer com a sua sagacidade, ferrou.
– Não enche, meus genes são ótimos. Primeiro, que que você tá fazendo em cima da cadeira giratória? PARA DE ANDAR EM CIMA DISSO! SE VOCÊ CAIR VAI AMASSAR MEU FILHO!
– Ou filha.
– Ambos não é, que a gente já sabe que só tem uma coisa aí. Aliás, muito azar a criança estar DE COSTAS e com a mão TAPANDO LÁ.
– Ela tá se resguardando pro casamento. Tem barata.
– Barata se resguardando pro casamento? Taí uma versão interessante da Dona Baratinha.
– Largou a inteligência na sala de aula hoje?
– Larguei. Meus alunos sugaram meu cérebro hoje. Quase uma zombie class.
– Tem uma barata aqui na sala, mas quando fui pegar o inseticida pra matar a maldita afogada, quando voltei, ela tinha se enfiado embaixo do armário. E não tem mais inseticida e eu tô com medo.
– PARA DE ANDAR EM CIMA DA CADEIRA!
– EU É QUE NÃO PISO NO CHÃO! A BANDIDA VAI PULAR EM MIM!
– É só uma barata!
– Nem vem com essa de que ela tem mais medo de mim que eu dela. Tem muito mais chances dela pular em mim, do que eu pular ou voar em cima dela.
– Tá, tá, me dá seu chinelo então.
– De jeito nenhum.
– Quer que eu mate a barata como? Com a mão?
– Com meu chinelo bonitinho não.
– Onde é que eu vou arrumar um chinelo feio???
– Vai com seu sapato mesmo. TÁ LOUCO? VAI QUEBRAR O ARMÁRIO!
– Mas eu tenho que arrastar pra barata sair de debaixo dele!
– Bárbara pagou caro nesse armário e a gente pagou caro nesse chão. Tem que ter outro jeito.
– Vou pegar inseticida na vizinha?
– Vai. Anda.
– Tá, já volto.
– Enquanto isso eu aqui, grávida, agachada na cadeira. Devia filmar e botar no youtube. Se essa barata não sumir, durmo nessa cadeira ou no corredor. AAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHH!
– QUE FOI? QUE FOI? CAIU? QUE QUE HOUVE?
– A BARATA LÁ! OLHA! ALI!
– PORRA, QUE TAMANHO DE BARATA É ESSE!
– EU DISSE!
– CREDO! MORRE, LAZARENTA!
– Não acertou. Sua mira é péssima.
– Eu jogo o sapato pra você, e você acerta, então?
– Pode ser. Joga pra mim. PRA MIM, NÃO EM MIM!
– ELA TÁ ANDANDO! JOGA ESSA MERDA LOGO!
– AAAAAHH! ACERTEI?
– Mais ou menos. Ela tá tonta. Haha. Vou matar com o inseticida.
– NÃO, ESPERA!
– ESPERA O QUÊ, MULHER?
– Mata não…
– VAI FAZER O QUÊ? PEGAR PRA CRIAR?
– Não, é que… é muito grande. É quase uma pessoa.
– Como é que é?
– Não mata, tenho dó!
– QUE QUE EU FAÇO ENTÃO?
– Ai… não sei… AHHHH!
– Por que é que você pode acertar coisas nela e eu não? AÍ, ELA TÁ PARADA! ACHO QUE MORREU! SAI DAÍ!
– SAÍ, SAÍ, SAÍ! PRA PORTA, ANDA!
– BOM DIA, SEUS LIND… que que é isso? Nossa, que recepção calorosa.
– Ricardo! BARATA, RICARDO! NÃO PODE ENTRAR NO APARTAMENTO!
– Ó. A amiga é sua. Se vira. Eu vou devolver o inseticida.
– Que barata onde, ficou doida? Hormônios da gravidez afetaram seu juízo, SABIA que você não podia procriar, eu avisei que ele tinha genes PÉSSIMOS.
– Tá lá, Ricardo, enorme… tira de lá, mas sem matar? por favor? Pelo bem do seu afilhado?
– Ou afilhada. Então você quer que eu entre no seu apartamento, pegue uma barata e jogue pela janela?
– É. Isso.
– Tá. Lindo. Te contar viu, meu sindicato da gayzice vai procurar vocês depois. Ó, eu fui lá, tinha barata nenhuma. E não, você não vai dormir em casa.
– AI, ALI A VADIA!
– PORRA DE TAMANHO DESSE BICHO!
– EU DISSE EU DISSE EU… eita.
– Desculpa, amor, não segurei a vizinha a tempo.
– Ow… essa não é sua vizinha de 70 anos?
– Sou, e calem a boca. Era só uma barata.
– Nossa vizinha de 70 anos matou a barata.
– Eu sei. O nenê tá se mexendo de vergonha alheia aqui.
– Gente, que que é aquele pontinho na parede de vocês?
– PORRA, TEM OUTRA BARATA!
– CHAMA A VIZINHAAAAAAAAA!

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Nota da autora: não tentem se locomover em cima de cadeiras giratórias pra fugir de barata. Não funciona e vocês vão cair. E vai doer.




Ela & Ele na festa da faculdade

11 09 2010

No último semestre da faculdade…

– Tá.
– Tá o quê?
– Tá tudo. Tá frio. Tá fila. Estacionamento tá caro pra caralho.
– Nisso eu concordo.
– Nisso o que? Eu falei três coisas. Quatro, se contar o “tá tudo”.
– Nisso do estacionamento. Vinte reais pra parar o carro num lugar que nem particular é chega a ser quase um roubo. Fila sempre teve, e sempre vai ter, pra qualquer coisa, e frio que que você tá reclamando? Quem tá de saia sou eu.
– Ser homem tinha que ter alguma vantagem, nem que seja no vestuário de festa.
– Você é uma das poucas pessoas no mundo que usa a palavra “vestuário”. E falando nisso, podia ter pego um casaco, né?
– Nem, depois ia ficar carregando. Lá dentro é calor.
– Sim, mas aqui fora é frio e o casaco seria pra mim, dã.
– Devia ter me avisado antes de sair da casa que queria que eu fosse cavalheiro hoje.
– Casa? Aquela república bizarra?
– Não fala assim, dá uma dor no coração saber que no fim do ano eu saio de lá. Olha, a fila andou. Dois passos. Grande avanço.
– Dor no coração é enfarte. E a fila tá andando agora, pára de reclamar. Putz, que friiiioooooo!
– Por que você pode reclamar e eu não posso?
– Porque eu sou mulher. É cláusula do contrato meu direito de reclamar mais que você.
– Eu não lembro de ter cláusula nisso naquilo que a gente assinou.
– Não é “aquilo”, é nosso Contrato de Boa Convivência no Relacionamento. E tá lá, te mostro amanhã. Aí, pronto, entramos, praticamente a última festa de faculdade na graduação. Que triste.
– AHN?
– O QUÊ?
– NÃO ESCUTEI!
– PRATICAMENTE ÚLTIMA FESTA DA FACULDADE!
– Mas tem outras ainda, não é fim de semestre.
– Por isso o praticamente.
– Vai andando na minha frente, você abre caminho melhor que eu.
– EU? O homem é você!
– Sim, mas a porção violenta do relacionamento é incubência sua. Ninguém mandou ter a mão pesada, a mira boa e um cotovelo pontudo. É cláusula do CBCR.
– Se eu arrumar confusão, não reclame.
– Pra onde a gente tá indo?
-AHN?
– PRA ONDE A GENTE TÁ INDO?
– Pra pista de dança.
– VOCÊ NÃO AVISOU QUE EU TERIA QUE IR PRO MEIO DO INFERNO! Disse que a gente podia ficar no cantinho!
– Escuta, tá mais do qu na hora de se livrar dessa frescura sua. Pronto, ó, um lugar até meio decente e na pista, viu?, ninguém vai morrer fora esse FILHO DA PUTA que tá me empurrando!
– Amor, quem cotovelou ele foi você, ele só perdeu o equilíbrio e quase caiu.
– Dane-se.
– QUEM?
– DANE-SE!
– Puta merda, olha a música…
– ONDE?
– ONDE O QUE?
– Nada, esquece. PORRA, FURARAM MEU RIM AGORA!
– Não exagera, seu fresco.
– Se eu sou fresco, exagerar é esperado. Onde tem banheiro aqui mesmo?
– Ali, ó. Naquela fila nojenta.
– Esquece, vou falar com o segurança pra ver se rola ir mijar no mato. Já volto. Não sai daqui, pelo amor de Deus. Se eu te perder aqui…
– Não vai me perder, amor…
– … vou embora, te largo aqui e você se vira com o taxi. Já volto.

trinta minutos depois…

– VOCÊ SAIU DO LUGAR!
– OI?
– VINTE MINUTOS PRA TE ACHAR NESSA BIROSCA! Pelo menos tá do lado do bar. É open bar, né? A cerveja é decente?
– Não, mas desde quando a gente toma cerveja decente em festa de faculdade pública?
– Por que você saiu do lugar?
– Encontrei com o Ricardo, ele perdeu o namorado, a gente foi procurar.
– Nem sabia que o Ricardo namorava. E acharam?
– Não.
– Por que não?
– Porque o Ricardo não namora!
– E por que diabos vocês foram procurar o namorado imaginário dele?
– Porque ele bebeu demais e esqueceu que é solteiro.
– E cadê ele?
– Sumiu.
– Sumiu por que?
– Porque lembrou que é solteiro.
– Pressinto visitas ao HC amanhã, olha a Bárbara ali meio caída. Aquilo é a saia dela???
– Não, é uma blusa comprida mesmo.
– E cadê a saia dela???
– Eu que sei? E PÁRA DE OLHAR!
– TÁ, PAREI, dá pra gente ir pra outro canto? Aqui o empurra-empurra tá pior que na pista.
– Porque já deu aquela hora da festa em que todo mundo prefere beber a lembrar que tem prova amanhã.
– Eu não tenho prova amanhã. Nem aula eu tenho.
– Eu tenho. Às oito da manhã. Quer dizer, eu tinha.
– Como assim?
– Tá vendo aquele senhor ali no ambulatório? É o professor da prova de amanhã.
– TEU PROFESSOR TÁ BÊBADO NA FESTA?
– Calma, nem professor direito ele é, é do mestrado, tá dando aula por falta de professor. Pelo estado dele, nem rola a prova amanhã, então tá beleza. Vou fazer xixi, não sai daqui.

intermináveis minutos depois…

– Vamos embora.
– PORRA, QUE SUSTO!
– Que bonitinho, você não saiu mesmo do lugar.
– Claro que não. Me separei da manada, tive que defender meu território sozinho. Aliás, meu rim pediu pra avisar que te odeia.
– QUEM ME ODEIA?
– MEU RIM!
– QUE QUE TEM SEU RIM?
– FOI COTOVELADO ATÉ A FALÊNCIA!
– AHN?
– Nada, a gente pode ir embora? São quatro da manhã já. Por favor? Pelo amor de Deus? Antes que comece o putz, começou a parte do sertanejo, escuta, eu vou embora, você se vira!
– Calma, a gente vai embora, pronto, vem. Eu abro caminho.
– Graças. Dorme lá na república comigo. Você tira esse sapato apertado, tomamos um banho e desmaiamos na cama pra amanhã encontrar o Ricardo caído na calçada e quarenta ligações da Bárbara chorando, enquanto você perde a prova que seu professor-que-não-é-professor vai dar independente da festa. E o melhor, lá não tem filas. Que aglomerado é esse?
– A fila pra ir embora. Depois tem a do estacionamento.
– Toda vez que a gente vai pra uma festa, eu relembro todos os motivos pelos quais sempre prometo que nunca mais vou em uma.
– E toda vez que olha pra mim, relembra todos os motivos pelos quais sempre quebra essa promessa.
– Odeio você.
– Odeia nada. Vai casar comigo.
– Vou nada.
– Vai sim.
– Não vou.
– Vai sim.





Ela, Ele e os nomes

29 08 2010

– Não é melhor usar aqueles livros de nomes pra bebês?
– Não vou escolher o nome do filho que carrego no meu ventre apontando um nome qualquer num livro. Imagina, “mamãe, de onde é meu nome?” “daquele livro na estante, ó.”
– Tem que ser algo significativo, então.
– Isso. Independente do que signifique a coisa, a associação tem que ser sentimental pra gente.
– Tá. Começamos com meninas.
– Olga. É curto, tradicional, forte…
– Ela também vai estar grávida e querendo ter o filho no Brasil?
– Olga fora. Tem… Cristina. Lembra, nossa professora de física no colegial? Só passava de ano porque ela dava uma forcinha.
– NÃO DIGA ALÔ, DIGA ALÔ, CRISTINA!
– Cristina fora. E Mariana? É comum, mas bonito, eu nunca conheci uma Mariana chata.
– Nem eu, mas Mariana não pode. Aliás, nada terminado com “ana”.
– Ué, por que não?
– Banana.
– Oi?
– Mariana, cara de banana. Ou Juliana, vira Julianta. Sempre tem uma criança estúpida pra cantar “Mariana cara de banana” no infantil. Não quero uma filha sofrendo bullying por causa do nome.
– Mas cortar toda uma sorte de sufixos restringe muito as escolhas.
– Nada com Maria na frente também. Tem sempre alguma musiquinha pornográfica com Maria.
– Tem???
– Tem. Nada terminado em “ana”, nem começado com Maria.
– E Ana na frente?
– Não sei, Ana me lembra muito “anal”, não acho conveniente.
– Se a gente for cortar todos os nomes que podem virar motivo de piada, a criança vai chamar “ow” ou “vem cá!”.
– Isabella é um nome bonito. Aquela amiga minha, lembra, com dois “L”? A que morreu de câncer, mas sei lá… seria uma homenagem bonita.
– É, eu lembro da Bells… se tem alguém que merece uma homenagem dessas, é ela, mas acho melhor não…
– Por quê?
– Crepúsculo.
– Achei que você gostava dos livros. E nem é por eles que seria o nome, é pela Bells.
– Sim, mas quando falarmos o nome dela, a primeira associação SEMPRE vai ser com a Bella Swan, e por mais que goste dos livros, não quero uma filha associada a uma personagem-bexiga.
– Personagem-bexiga?
– Solta não tem rumo, é vazia por dentro e enche tanto, mas TANTO, que quando solta e some a gente até fica triste, mas o alívio de não ter que tomar conta é maior.
– A do livro é conhecida por Bella, com A no final, a nossa era Bells… aliás, Hells Bells, que era fã de AC/DC. Podia ser Isabel.
– Isobel, com “O”, então.
– Não fica estranho?
– Fica diferente, mas no apelido homenageia direitinho a Bells, ainda é o nome da Izzie de Grey’s Anatomy que você adora, e música da Björk, que eu adoro. Acho válido. Homenageamos três mulheres incríveis.
– Fechamos em Isobel, então?
– Fechamos. Meninos agora. Você começa.
– Matheus, o diretor do colégio que foi a primeira pessoa a me dar uma chance de dar aulas. Grande pessoa.
– Matheus me lembra “Meteu”. E parece nome de retardado, com todo respeito ao Matheus, que é ótimo, mas que o nome parece de retardado, parece.
– Tá… e Eric? Um dos nossos padrinhos!
– O que depois a gente descobriu que era viciado em heroína, fugiu pra casa de um traficante e agora cumpre pena por formação de quadrilha?
– Nem queria mesmo filho com nome de Pequena Sereia. Tem o Victor, aquele cara meio louco que morava na rua, na nossa época do colegial, mas era um gênio. Lembra os desenhos que ele fazia com carvão nos muros? Saiu no jornal, até. E era um poço de educação. Dava flores que pegava ns jardins pras mães que iam buscar os filhos. Ele era legal.
– Nooosa, é mesmo, o Victor! Era uma figura… parecia coisa de filme. Eu votaria “sim”, mas não rola.
– Por que não?
– Porque o marido da minha irmã é peruano. Em espanhol não tem muita diferenciação na pronúncia de coisas com “v” e “b”.
– E daí?
– E daí que não quero um filho com apelido de caneta Bic. Victor, Bictor, Bic.
– Fernando.
– Não lembro de nenhum Fernando.
– Lembra sim.
– Não lembro.
– Lembra sim.
– Não lembro.
– Lembra sim. Sexta série, hora do recreio, no pátio. Uma turma jogava bola, chutaram longe, um dos jogadores correu atrás e acabou esbarrando e passando por cima de você. Quebrou seu queixo no chão sem querer, sangrou à beça e te levaram pra enfermaria. Lembra quem te levou pra enfermaria?
– VOCÊ! Foi quando a gente começou a se falar!
– Exatamente. Nossa primeira troca de frases. E o menino que te atropelou era Fernando.
– Fernando… Nando… Nandinho é tenso.
– Mas não é feio. Nando, Nandinho, Fer, até Ferdinando, são apelidos inofensivos.
– Ai… Infernando. Inferno. Parece mau agouro.
– Só se ele puxar sua parte de genes que vieram da sua mãe. Mas pensa… que criança não ia querer um apelido batuta desses?
– “Batuta”?
– Não enche.
– Fernando… taí, gostei. Fernando.
– Isobel e Fernando. Pronto. Vai começar o jornal. Pega o controle.
– Pego, mas…
– Mas…?
– O que tem de errado com os genes da minha mãe?
– Não vou falar, a Veja tá aí do lado. Bota no jornal, anda.