A machadinha

26 07 2011

Uma machadinha.
De verdade.
Cabo de madeira gasto, a cunha de ferro suja, meio enferrujada em alguns pedaços e com uma crosta de algo amarronzado que ele desejava ardentemente que fosse apenas terra ou barro.
Estava sentado na cama da namorada esperando que ela terminasse o banho. Havia feito algumas besteiras nos últimos meses, sabia que ela estava chateada, e pretendia levá-la para jantar em um restaurante badalado. Mas nada muito demorado. Disse a ela que passaria o resto da noite escrevendo o TCC, mas já havia combinado um chopp num bar em outra cidade com os amigos. Veja bem, ele tinha que mentir. Se contasse a verdade, ela não ia gostar. Mas não havia nada de mal naquilo. Era só uma noitada. E sem a aliança, mas só porque não queria perder.
Foi se esticar um pouco e quando deitou a cabeça no travesseiro, sentiu algo duro. Pensou por uns instantes se a namorada estaria nuuma fase mais dirty, mas quando levantou o travesseiro, lá estava.
A machadinha.
Não sabia o que fazer com aquilo. Não é todo dia que se encontra uma coisa como aquela na casa da namorada. No quarto da namorada. Aliás, não podia ser dela. Era tão meiga. Mas também não parecia ser coisa do pai, que era contador, muito menos da mãe, professora do fundamental de uma escola particular. E ela não tinha irmãos. Onde raios tinha arrumado aquilo, e por quê? E mesmo que pertencesse a outra pessoa, o que aquilo fazia nmo quarto dela?
Escutou o barulho do chuveiro sendo desligado e a voz da namoradas perguntando se estava tudo bem. Respondeu que sim, claro, e será que ela podia se apressar?, que ele queria… er… passar mais tempo com ela. É.
A namorada riu.
Ele não achou graça.
Continuou segurando a machadinha, suando frio e tentando entender. Pensando se deveria confrontar a namorada. Exigir uma explicação. Mas se ela tinha uma coisa daquelas embaixo do travesseio, o que mais poderia ter escondido naquele quarto? Uma escopeta?
Ouviu a pota do banheiro se abrir e guardou a machadinha às pressas no lugar em que estava antes. A namorada saiu do banheiro de lingerie, procurando o vestido.
– Você precisa mesmo estudar hoje?
– Preciso… o… TCC…
– Você anda com tão pouco tempo pra mim. Chega a ser irritante.
Sentiu um choque de frio percorrer a espinha. Foi só um comentário, ou uma ameaça?
Quase entrou em pânico.
Achou melhor não ir com os amigos pro chopp, e passou aquela noite com a namorada. E todas as outras que se seguiram. Vivia pra ela e pro medo da machadinha. Ela, feliz, era só elogios pra mudança do namorado.
Um dia, não aguentou mais e terminou tudo, que acabou aceitando tudo, resignada. Agora estava livre. Não precisava mais ter medo de namorar uma psicopata, nem pensar mais na machadinha. Liberdade de pensamento, finalmente. E de sair. Marcou aquele chopp com os amigos às pressas. Jogou a aliança no mato. Livre.
Foi encontrado morto duas horas depois.
Tiro de escopeta.

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4 responses

26 07 2011
Gui

Muito bom o desfecho! uhaeheahu coitado do cara.

26 07 2011
mahh

Pelo menos morreu na hora, foi tudo com muito amor e carinho e

26 07 2011
Laís Costa

Ta vendo, a gente nunca sabe o que esperar das pessoas =D

1 08 2011
Ruds

Aprendi a lição. NÃO esperei por um final feliz nessa. -ss

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