Mortinhas II – rasgando papel

15 06 2011

Começou rasgando as fotos quando o namoro acabou. Atitude relativamente comum, esperada até, junto com o novo corte de cabelo – porque toda mulher muda o cabelo nessas situações. Pra ela, foi uma evolução, mas não no sentido que os outros esperavam;  isso fica pra depois. Rasgar as fotos do namoro não foi o suficiente. Começou a rasgar outras, aleatórias. Aniversários, batizados, festas. Fazia tudo escondido, colocava num saco plástico e jogava no lixo reciclável. Estranharam o sumiço dos porta-retratos, mas atribuíram à decoração. Passou para as cartas e bilhetes que guardava com carinho em caixas desde os doze anos. Era quase um ritual, rasgar e deixar pra trás. O que, exatamente, ela não sabia, mas os dedos já trabalhavam sozinhos. Em um mês, deu cabo dos livros. Tirava os fins de semana pra isso, página por página, sem pressa. Cortou os cabelos de novo, bem curtinhos, com navalha, a coisa mais próxima de rasgar que ela conseguia com eles. Todo mundo adorou, acharam que mudar era sempre bom, e olha só, tinha a nuca tão bonita, e estava calor, mesmo.

Começaram a perceber que tinha alguma coisa errada quando ela não apareceu mais pra trabalhar, parou de atender os telefonemas, sair de casa e até mesmo abrir a porta. Na mesa do escritório, havia rasgado tudo que era possível, deixando só os pedacinhos e as perguntas dos agora ex-colegas. Mas acharam que podia ser só uma fase de reclusão, esse tipo de coisa acontecia. Modernidade trazia esse tipo de coisa, mesmo. Ela continuou rasgando as coisas que sobravam na casa. Livros, roupas, sofás, cortinas. O que a mão não dava cabo, conseguia com a tesoura. A sensação de alívio durante a destruição era reconfortante, até que acabava e sobrava a constatação de que, não importava o quanto ela tentasse, sempre havia algo, em algum lugar, que alguém poderia rasgar – seu coração, seus sentimentos, e então aparecia a sensação de vazio, que ela preenchia com a sensação de que era melhor que ela mesma rasgasse. E continuou dando cabo das coisas na casa. Voltou a visitar os amigos, mas parou quando eles começaram a notar as coisas rasgadas em suas casas. Perceberam que tinha algo errado, tentaram conversar, mas ela se isolou novamente. Nem o papel de parede e o carpete sobraram inteiros.

Terminou rasgando os pulsos, mas isso não foi surpresa pra ninguém.

 

 

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