45 linhas

5 05 2011

Eu gosto de digitar no word com fonte Calibri tamanho 12. Isso contabiliza cerca de 45 linhas por página, com espaçamento normal, sem deixar espaço entre os parágrafos. Não gosto de escrever textos grandes (não nasci com o dom da prolixidade positiva), então considero 45 linhas nessa fonte e nesse tamanho mais do que aceitáveis. O problema é fazer as 45 linhas aparecerem. A idéia já aparece pronta na cabeça, inteirinha. Tem começo (do nada, que é como eu gosto de começar as coisas), meio (chega a algum lugar) e fim (aceitável pro momento). Dá pra visualizar os diálogos, se tiver algum. Imaginar a(s) cena(s). Fica lindo na minha cabeça.

Mas nenhuma linha sai. Não é bloqueio criativo, porque pelo menos 40% do trabalho já foi feito. Revisado. E mesmo assim, já tem umas três semanas que fico remoendo o que pensei. Três semanas do mesmo ritual. Sentar na frente do computador. Abrir o word. Nada. Fuçar o last.fm. Voltar pro word. Digitar alguma coisa (por alguma coisa, leia-se duas ou três linhas). Visitar sites de fofocas. Outros blogs. Word. Nada. Estorvar alguém no MSN. Word. Nada. Eu olho pro word. Ele olha pra mim. E nada.

Um lindo e absoluto N.A.D.A., isso sem considerar os momentos de ficar olhando pra tela em branco, parada, pensando por que diabos ninguém inventou ainda alguma coisa que tire as coisas da minha mente e passe automaticamente pro computador. Algo assim ajudaria muita gente. Escritores. Jornalistas. Gente escrevendo a tese do mestrado. Incontáveis pessoas seriam beneficiadas por algo assim. Rins seriam vendidos no mercado negro (ou no livre) pra pagar uma maquininha que fizesse brotar palavras. E nisso já foi quase uma hora, até que me conformo que nada vai sair, fecho o word e vou fazer qualquer outra coisa.

Não era pra ser tão difícil assim. Se tudo já está pensado, esquematizado, qual a dificuldade em só digitar? Escrever a mão não ajuda. Já tentei, e o máximo que consegui foi ficar frustrada porque não consigo desenhar bolinhas perfeitamente redondas ou porque as linhas das minhas espirais não ficam paralelas. Já tenho uma séria tendência a desistir de coisas. É só ver quando foi a última atualização aqui. Expert em começar – terminar já não é meu departamento. Também já tentei não usar o word, mas a culpa não é dele. Dos meus dedos, talvez, que com a mesma insistência com que voam pra letra U quando não quero, se recusam a funcionar. É frustrante. Se pelo menos a idéia não existisse, vá lá, teria uma desculpa. Mas ela tá aí! E quanto mais enrolo, mais a idéia não parece mais tão boa assim. Talvez o começo seja tão do nada, que não faz sentido. O meio não mostra qual o rumo que a coisa deveria ter tomado. O final ficou tonto. Os diálogos são blé. Daí pra engavetar tudo é um passo. Comportamento típico de quem desiste fácil. Ou de quem procrastina muito. Procrastinadores me entenderão.

Eu sei que Libba Bray me entende, como li agora há pouco no blog dela.

“If this part of the writing process were an iPod track list it would look like this:
Track #1: I Suck
Track #2: I’m Not Smart Enough to Write This Book
Track #3 No, This Is Different
Track #4: Maybe I Could Become a Firefighter/Gravedigger/Finger Puppeteer
Track #5: I Suck, Parts IV-VIII
Track #6: Why Can’t I Write Like (Fill in Blank)?
Track #7: This Doesn’t Happen To (Fill in Blank)
Track #8: Will You Help Me Fake My Death/It’s the Only Way/My Life in a Storage Unit Medley
Track #9: I Suck (Extended Dance Remix)
Track #10: What Was I Thinking?
Track #11: This Is Hopeless! (DJ Flail ‘N’ Whine Mix)
Track #12: So Overwhelmed I’m Underwater
Bonus Track: Also, I Hate My Hair”

Eu sei, eu não sou a Libba Bray. Se fosse, saberia como misturar alguém morrendo por causa da doença da vaca louca, uma anja punk e um anão de um jeito que fizesse sentido. Lá em cima escrevi “cerca de 45 linhas”, e o word quer corrigir a frase pra “cerca de 50”. Não consigo escrever nem 45, que dirá 50. O processo fica parecido com arrancar um band-aid. Ou parir um filho. Talvez eu devesse reservar um dia de folga só pra isso, mas usar um dia inteiro pra escrever um texto de uma página parece atingir um grau de loser que nem eu sei se deveria testar se existe. Mas agora, pelo menos, eu sei que até a Libba Bray tem sua track list de “bad writing day”. E eu sei que 45 linhas vão continuar sendo difíceis e dolorosas, mas eu não fico sozinha nessa. Tenho a Libba. E os procrastinadores. E os mestrandos. Viva nós.

 

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4 responses

5 05 2011
nando :D

bad writing day: acontece muito comigo e

5 05 2011
freds

E viva nós D:

6 05 2011
thaís

sei bem como é. ._.

10 06 2011
Começa com... M ;)

Não deixe pronto; quer começar, comece sem querer. Explore as cores ou ausência delas que teve em seu dia e retrate-o além de um olhar no espelho : intimamente. Esqueça as superficialidades, coloque o que está além do reflexo
nem que tenha que falar sobre o silêncio estonteante provocado por aquilo que sentimos hoje. E estou falando de as ;)
E mais uma coisa : sobre o que os outros vão pensar ??? Quem se importa?! Antes de escrever pra alguém, escreva pra você.

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