Acontece.

21 10 2010

O casamento tinha chegado a tal ponto que os dois se encontravam apenas sem querer, andando pela casa. Casaram cheios de amor e promessas, mas a passagem dos anos, o aluguel, as cobranças, o tempo, nada disso lhes foi benéfico. Não tinham filhos, já que foram adiando até terem uma condição financeira melhor, e adiando, e adiando, e agora, os dois com quarenta e poucos, já nem consideravam mais a opção. Moravam sozinhos, num apartamento pequeno. Não se odiavam, não era esse o problema. Apenas… não sentiam mais nada um pelo outro. Estavam juntos por estarem juntos, acomodados com aquela rotina de mais de vinte anos de casados. Aquilo era algo conhecido, monótono, mas seguro. Os dois chegaram a considerar o divórcio uma ou duas vezes, mas a separação significava se mexer, fazer alguma coisa, encarar o desconhecido. Naquela idade, naquela situação, nenhum dos dois se achava preparado para aquilo. E deixavam a idéia pra lá. Movimento era vida, conformidade era morte, e os dois estavam mortos há muito tempo.

Ela foi à feira naquele dia cedo, enquanto o marido ficou em casa, vendo o jornal matinal. Enquanto escolhia o peixe pro almoço, ia lembrando do começo do casamento. Eram tão felizes, tão cheios de vida e de planos, em que momento aquilo tudo desandou? Eram dois desconhecidos agora. Sexo era algo com dia e hora marcada pra acontecer, e muito mais de quarenta minutos, ele se cansava e ela, ai que nojo, começava a suar. Eram incansáveis antes. Quando foi que a vida estacionou daquele jeito? Escolhendo os temperos e verduras, pensou na coisa dos filhos. Sempre quiseram um casal. Uma família grande. Ele era um homem de grandes ambições, ela queria tanto progredir na carreira, quando foi que resolveram deixar tudo pra lá? Era isso o que mais faziam: adiar as coisas. Sempre parados, no mesmo lugar. O relacionamento deles funcionava em aparelho respiratório já, e nenhum deles tinha a coragem de puxar o plugue. Teve que segurar o choro enquanto terminava as compras e voltava com as sacolas, caminhando pra casa.

Respirou fundo. Não era isso o que tinha planejado pra sua vida. Não podia continuar naquela situação pra sempre. Mas realmente não queria divórcio. Ser separada nunca esteve em seus sonhos. Nada de puxar o plugue. E se lutasse pelo casamento? Se pelo menos tentasse? Uma conversa. Pra um primeiro passo, uma conversa estava de bom tamanho. Nem precisavam decidir nada sobre nada, apenas conversar, enquanto ela preparava o almoço. Quanto tempo fazia desde a última conversa decente entre eles? Sobre o que falariam? Um filme. Ela veria o que estava passando no jornal, e diria que os dois poderiam ir ao cinema. Fazia tempo desde que foram ao cinema pela última vez, Coisa de anos já. Ele estranharia, e ela diria que seria apenas uma boa maneira de passar pelo menos um dia fora de casa. Ele aceitaria, ainda desconfiado. Seria estranho, não estavam acostumados com isso, mas de repente, talvez ele segurasse sua mão no escuro e isso indicaria que as coisas iam ficar bem. Passos pequenos, era isso o que faria.

Chegando em casa, deixou as compras na mesa da cozinha e foi até a sala, atrás do marido. Encontrou-o enforcado com o cinto, no lustre da sala. Ficou parada, sem reação, olhando, por alguns minutos. Saindo do estado de surpresa, pegou o telefone e começou a discar o número da ambulância e, depois, da polícia, suspirando resignada.

Pelo menos o marido tinha feito alguma coisa diferente, hoje.

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Tema sugerido pelo Nando, do Prolixidade&Verborragia
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4 responses

21 10 2010
nando

só por que eu sugeri e <3

21 10 2010
Tweets that mention Acontece. « -- Topsy.com

[…] This post was mentioned on Twitter by nando oliveira and nando oliveira, Mareska. Mareska said: Post novo http://migre.me/1Gpyc e feedback é bom, sabia? #indireta […]

21 10 2010

medo D:

mas ficou linds *–*

21 10 2010
Dinah

muito bom!!!!

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