Problemas de coração

18 09 2010

Já estava cansada de todo mundo reclamando que ela não tinha coração. Nunca gostou de bichinhos fofinhos, filhotinhos e etc, e era tachada de sem coração. Na adolescência preferia dar um fora nos meninos a dar corda quando não queria, e reclamavam que ela não tinha coração. Na faculdade, preferiu dar mais atenção à futura carreira do que às festas e aos supostos amigos/colegas de sala, e lá vinha o sem coração. Quando arrumou um namorado, um amor de moço, mesmo assim não escapava de não ter coração só porque era mais prática do que romântica. O namorado, sim, era um primor de sensibilidade.

Acabaram se casando. A carreira dela ia cada vez melhor, mas a falta de coração a perseguia por não querer ter filhos. Nunca teve um instinto maternal muito forte, preferia se concentrar em outras coisas e tinha sobrinhos e afilhados. Só a empregada a entendia, e morria de dó da patroa, independente demais, coitada. O primor de sensibilidade no final das contas era acomodado demais, sem iniciativa demais, desanimado demais, mas ela ainda tentava fazer o casamento dar certo, ainda que perdesse a paciência com a falta de vitalidade dele algumas vezes. Ele descobriu as chantagens emocionais e as pressões psicológicas, a sogra entrou em cena, e mais uma vez, a culpa era dela, aquela sem coração.

Não entendia o que fazia de errado. Só queria poder viver sua vida sem frescura ou sentimentalismo fake, sendo sincera, sendo ela mesma, passando longe daquele padrão de mulherzinha. Sem ter que agüentar o marido e a sogra, cuja presença era cada vez mais sufocante, chamando-a de sem coração de hora em hora, comparando com as cunhadas, a prima, a vizinha, sempre a puxando pra baixo.

Um dia, a sogra resolveu aparecer de surpresa (mais uma vez), levando um bolo pro filho, porque a mulher dele não gostava de comer doces o tempo todo porque excesso de açúcar fazia mal, aquela sem coração privando o marido de algo tão simples e fácil de fazer por frescura. Tocou a campainha, quem atendeu foi a empregada, que já estava de saída, avisando que a patroa e o marido tinham brigado demais e a pobrezinha não estava em casa, e foi embora, apressada.

A sogra subiu as escadas até o quarto do casal, que estava com a porta aberta, resmungando em voz alta sobre como homens tão bons não deveriam se casar com mulheres que não sabiam dar valor a um homem decente, e como a outra nora dela era tão mais prestativa e como aquela mulher que fisgou seu caçula parecia não ter coração.

Parou sem reação na frente da porta, vendo o corpo do filho pendurado no teto, o peito aberto e o coração faltando. A perícia mais tarde encontraria dentro do peito um cartão cor de rosa em formato de coração, dentro escrito com caneta prateada “você e seu filho também não têm.” A nora nunca foi encontrada, nem a empregada.

Até hoje a sogra espera, apreensiva, a ex-nora, aquela sem… deixa pra lá.

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3 responses

18 09 2010
Dinah

Genial, o que eu mais gostei até agora!!!

20 09 2010
Giulia

Ei, Mahh! Tenso, esse! Seu Semestre foi menos assustador, embora mais psicótico que ela…
Adorei!

24 09 2010
Moquinha

Ei, conselheira, estou em dia com os teus textos. Faça o livro e eu compro. Digo mais, vou ser a primeira da fila de autógrafos. E tu sim tem coração, mesmo que o final possa ser, quem sabe, uma metáfora biográfica. Quem sabe?

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