Seu Semestre

4 09 2010

Todo mundo tinha dó dele. Meio calado, de meia idade, do tipo que anda meio curvado, com as mãos meio enfiadas no bolso do casaco, meio sem levantar o olhar da calçada, o chapéu panamá meio tapando o rosto, meio… meio. “Metade” parecia ser bem o que definia a vida dele. Morava sozinho numa casa enorme de esquina e não chegava exatamente a ser popular entre os vizinhos, mas já tinha virado uma figura clássica naquela vizinhança. Era o Seu Semestre. A questão é que ele era, antes de tudo, um romântico. A senhora que morava a duas casas à esquerda costumava dizer que ele era o último cavalheiro do país. Sempre tirava o chapéu ao cumprimentar alguma das vizinhas, jamais negava um bom-dia aos conhecidos e um “por favor” e “muito obrigado” aos desconhecidos. Ajudava a carregar sacolas pesadas, fazia questão de que as senhoras e as crianças andassem do lado de dentro da calçada. Abria e segurava portas. Extremamente polido. Mas seus relacionamentos nunca duravam mais de seis meses.

Não que fosse um namorador; era homem de uma mulher só. Seu jeito assim, meio tímido e educado, compensava a aparência não tão atraente quanto era quando tinha lá seus vinte e poucos anos – aliás, os anos não pareciam ter sido muito bons com ele. Mas mesmo assim, às vezes ele aparecia com uma moça, às vezes mais nova, às vezes mais velha, mas todas sempre muito distintas. E aparecia feliz, e a partir daí, a ampulheta se virava e em seis meses, tire ou dê alguns dias, voltava à aparência tristonha de sempre. Quando lhe perguntavam o que havia acontecido, suspirava resignado e respondia: “Não era o que eu pensava… achei melhor terminar com ela.” e saía andando, assim, meio. O casal mais antigo de lá, que morava na rua de trás, dizia que as coisas eram assim já tinha bons anos: ele aparecia feliz com uma moça, e seis meses depois… nada. Daí o apelido de Seu Semestre. Ele sabia, mas não se importava. Quando ouvia a alcunha, apenas sorria, sem graça. Todos tinham dó do Seu Semestre, tão polido, e nunca encontrava a moça certa e acabava com tudo. Um dia, Seu Semestre teve um enfarte e morreu. Só teve tempo de ligar pra ambulância, que não chegou a tempo. A vizinhança ficou desconsolada, pobre Seu Semestre, passou a vida procurando sua metade e morreu sozinho, coitado.

Ninguém entendeu nada quando, umas noites depois, vários carros de polícia chegaram em frente à casa vazia do Seu Semestre, junto com um carro preto estranho e vários materiais de construção, invadiram a casa e começaram a destruir tudo, piso, paredes, nem sótão, nem porão escaparam. Entenderam menos ainda quando sacos pretos começaram a sair de dentro da casa nas mãos da polícia, até que um deles sem querer saiu meio aberto, revelando lá dentro o corpo sem vida da última moça que Seu Semestre dispensou antes de morrer. No piso, dentro das paredes, em algumas caixas e nos armários, praticamente em todos os cantos da casa encontraram pedaços de corpos diferentes, de todas as moças que Seu Semestre já havia namorado desde que se mudou para aquela rua, anos atrás. Ninguém sabia o porquê daquilo, o que acontecia que em seis meses ele simplesmente se desiludia com elas e as escondia pela casa, aos tantinhos.

Mas agora, pelo menos, todo mundo entendia o que ele queria dizer quando sorria tristonho e dizia que tinha terminado com elas.

Anúncios

Ações

Information

8 responses

4 09 2010
Pâmela

Seríamos todas vítimas do Seu Semestre?

4 09 2010
Ruds

amei Mareska. *O*
/chuta a.a

5 09 2010

lindo e mórbido *–*

5 09 2010
thaís

eu adoro quando algum texto me surpreende no final. *O*
divo, mahh, como sempre. <3

5 09 2010
Dinah

Genial, não me canso de dizer!
Você escreve loucamente bem!!!

5 09 2010
Bijou

Pega essas estórias, bota num livro e vai ganhar dinheiro, moça! =D

5 09 2010
mahh

Vontade não me falta! Obrigada <3

10 09 2010
Naty

eu adoro quando algum texto me surpreende no final. *O* +1

Ótimo, Mah, muito bom, mesmo. Não se ache, mas é uma história digna de seriados policiais e *_*

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




%d blogueiros gostam disto: