Ela, Ele e os nomes

29 08 2010

– Não é melhor usar aqueles livros de nomes pra bebês?
– Não vou escolher o nome do filho que carrego no meu ventre apontando um nome qualquer num livro. Imagina, “mamãe, de onde é meu nome?” “daquele livro na estante, ó.”
– Tem que ser algo significativo, então.
– Isso. Independente do que signifique a coisa, a associação tem que ser sentimental pra gente.
– Tá. Começamos com meninas.
– Olga. É curto, tradicional, forte…
– Ela também vai estar grávida e querendo ter o filho no Brasil?
– Olga fora. Tem… Cristina. Lembra, nossa professora de física no colegial? Só passava de ano porque ela dava uma forcinha.
– NÃO DIGA ALÔ, DIGA ALÔ, CRISTINA!
– Cristina fora. E Mariana? É comum, mas bonito, eu nunca conheci uma Mariana chata.
– Nem eu, mas Mariana não pode. Aliás, nada terminado com “ana”.
– Ué, por que não?
– Banana.
– Oi?
– Mariana, cara de banana. Ou Juliana, vira Julianta. Sempre tem uma criança estúpida pra cantar “Mariana cara de banana” no infantil. Não quero uma filha sofrendo bullying por causa do nome.
– Mas cortar toda uma sorte de sufixos restringe muito as escolhas.
– Nada com Maria na frente também. Tem sempre alguma musiquinha pornográfica com Maria.
– Tem???
– Tem. Nada terminado em “ana”, nem começado com Maria.
– E Ana na frente?
– Não sei, Ana me lembra muito “anal”, não acho conveniente.
– Se a gente for cortar todos os nomes que podem virar motivo de piada, a criança vai chamar “ow” ou “vem cá!”.
– Isabella é um nome bonito. Aquela amiga minha, lembra, com dois “L”? A que morreu de câncer, mas sei lá… seria uma homenagem bonita.
– É, eu lembro da Bells… se tem alguém que merece uma homenagem dessas, é ela, mas acho melhor não…
– Por quê?
– Crepúsculo.
– Achei que você gostava dos livros. E nem é por eles que seria o nome, é pela Bells.
– Sim, mas quando falarmos o nome dela, a primeira associação SEMPRE vai ser com a Bella Swan, e por mais que goste dos livros, não quero uma filha associada a uma personagem-bexiga.
– Personagem-bexiga?
– Solta não tem rumo, é vazia por dentro e enche tanto, mas TANTO, que quando solta e some a gente até fica triste, mas o alívio de não ter que tomar conta é maior.
– A do livro é conhecida por Bella, com A no final, a nossa era Bells… aliás, Hells Bells, que era fã de AC/DC. Podia ser Isabel.
– Isobel, com “O”, então.
– Não fica estranho?
– Fica diferente, mas no apelido homenageia direitinho a Bells, ainda é o nome da Izzie de Grey’s Anatomy que você adora, e música da Björk, que eu adoro. Acho válido. Homenageamos três mulheres incríveis.
– Fechamos em Isobel, então?
– Fechamos. Meninos agora. Você começa.
– Matheus, o diretor do colégio que foi a primeira pessoa a me dar uma chance de dar aulas. Grande pessoa.
– Matheus me lembra “Meteu”. E parece nome de retardado, com todo respeito ao Matheus, que é ótimo, mas que o nome parece de retardado, parece.
– Tá… e Eric? Um dos nossos padrinhos!
– O que depois a gente descobriu que era viciado em heroína, fugiu pra casa de um traficante e agora cumpre pena por formação de quadrilha?
– Nem queria mesmo filho com nome de Pequena Sereia. Tem o Victor, aquele cara meio louco que morava na rua, na nossa época do colegial, mas era um gênio. Lembra os desenhos que ele fazia com carvão nos muros? Saiu no jornal, até. E era um poço de educação. Dava flores que pegava ns jardins pras mães que iam buscar os filhos. Ele era legal.
– Nooosa, é mesmo, o Victor! Era uma figura… parecia coisa de filme. Eu votaria “sim”, mas não rola.
– Por que não?
– Porque o marido da minha irmã é peruano. Em espanhol não tem muita diferenciação na pronúncia de coisas com “v” e “b”.
– E daí?
– E daí que não quero um filho com apelido de caneta Bic. Victor, Bictor, Bic.
– Fernando.
– Não lembro de nenhum Fernando.
– Lembra sim.
– Não lembro.
– Lembra sim.
– Não lembro.
– Lembra sim. Sexta série, hora do recreio, no pátio. Uma turma jogava bola, chutaram longe, um dos jogadores correu atrás e acabou esbarrando e passando por cima de você. Quebrou seu queixo no chão sem querer, sangrou à beça e te levaram pra enfermaria. Lembra quem te levou pra enfermaria?
– VOCÊ! Foi quando a gente começou a se falar!
– Exatamente. Nossa primeira troca de frases. E o menino que te atropelou era Fernando.
– Fernando… Nando… Nandinho é tenso.
– Mas não é feio. Nando, Nandinho, Fer, até Ferdinando, são apelidos inofensivos.
– Ai… Infernando. Inferno. Parece mau agouro.
– Só se ele puxar sua parte de genes que vieram da sua mãe. Mas pensa… que criança não ia querer um apelido batuta desses?
– “Batuta”?
– Não enche.
– Fernando… taí, gostei. Fernando.
– Isobel e Fernando. Pronto. Vai começar o jornal. Pega o controle.
– Pego, mas…
– Mas…?
– O que tem de errado com os genes da minha mãe?
– Não vou falar, a Veja tá aí do lado. Bota no jornal, anda.





Ela & Ele no restaurante

18 08 2010

– Eu já comentei o quanto eu não gosto da idéia de trocar de restaurante?
– Já, desde que colocou as meias pra sair.
– O italiano é tão bom. É italiano mesmo. O dono é italiano. A família dele inteira é italiana. Ele mal fala português, tem aquele sotaque e tudo. O cappellacci é cappellacci mesmo, não parece bolinha amassada de miojo. O vinho é decente.
– Mas nós dois concordamos que não seria italiano hoje.
– Sim, mas tem outros lugares que a gente vai sempre e sabe que é bom, que a cozinha é limpinha e que, sei lá, o cozinheiro lava as mãos quando sai do banheiro. Aquele restaurante mexicano. O da tequila dos infernos.
– Inferno mesmo, minha garganta queima só de lembrar. Mas você concordou em ir pra algum lugar diferente hoje, então quieto e não reclama.
– Mas justo um que a gente não conhece? Onde diabos você achou esse lugar?
– Escuta, eu saí com meu marido, ou com o Sheldon?
– Isso é restaurante do que, aliás?
– Do tipo que vende comida!
– Não entendo restaurante assim. Tem que ser de alguma coisa.
– Vai ser de viúva, logo, logo. Anda. Pelo menos olha o cardápio, que eu escolho a bebida.
– Antepasto é uma palavra tão feia.
– Oi?
– Antepasto. Parece coisa de vaca. Um prato de capim.
– Eu dispenso…
– O antepasto ou o capim da vaca?
– Ambos.
– Eu não.
– O antepasto ou o capim da vaca?
– O antepasto. Haha… tem um que vai grão de bico. A gente devia doar aquele saco de grão de bico entulhado em casa.
– Ou plantar e fazer um pasto de grão de bico pra vaca. Um antepasto saudável. Vai de vinho?
– Hoje não… tem cerveja?
– Tem.
– Tem cerveja decente?
– Não.
– Merda… eu bebo o que você for beber então.
– Vou pedir abacaxi com hortelã.
– Nem gosto de hortelã.
– Não ia beber o que eu bebesse?
– Sim, se fosse algo que eu também gostasse. Pede de… sei lá, pede água mesmo.
– Fresco.
– Aí, o restaurante é de comida mineira. 90% do cardápio grita Minas Gerais.
– 90% não é 100%, então não é de comida mineira.
– Até aí, coca-cola não é bebida típica do Japão, mas tem naquele japonês. Tem galinha ao molho pardo, eca.
– O que é galinha ao molho pardo?
– Nunca comeu galinha ao molho pardo?
– Não que eu saiba…
– Quer o resumo ou a versão do diretor?
– Resume.
– Galinha que no molho vai o sangue dela mesmo.
– TÁ BRINCANDO!
– Não… como você nunca comeu? Comeu sim, sua finada vó fazia, não lembra?
– É PRA ISSO QUE ERAM AQUELAS GALINHAS DO QUINTAL DELA?
– Shhh, fala baixo! Não precisa comer aqui, a gente pede outra coisa.
– Não acredito que minha vózinha matava galinhas pra cozinhar no sangue…
– Opa… eu vi umas vezes. Ela tinha um olhar quase sádico quando cozinhava galinha ao molho pardo.
– Eu vou passar mal.
– Não exagera.
– Nunca mais acendo vela pra ela.
– Carré em crosta de fubá e ervas com guisado caipira… tem cara de ser bom…
– Salada. Só me pede uma salada.
– Vai mesmo ficar traumatizada pela galinha?
– NÃO ME FALA MAIS NA GALINHA! Não acredito que você nunca me contou.
– Por que raios EU devia te contar? A vó era sua!
– Com licença… já querem pedir?
– De onde vocês pegam as galinhas? Onde elas ficam?
– Como assim, senhora?
– Esquece ela… olha, traz dois sucos de abacaxi, um com hortelã e um sem, e… tem algum prato vetegariano?
– Eu recomendaria a sopa vienense de tomates.
– Nisso vai grão de bico?
– Não, senhor.
– Então pode ser. Obrigado.
– As galinhas…
– O que foi, senhora?
– Nada. Só… esquece.
– Quer uma galinha de presente, amor? Assim você não fica assustando o garçon. Coitado, levou o pedido com a maior cara de “que porra é essa”.
– Quero.
– Oi?
– Uma galinha. Eu quero.
– Você tá brincando.
– Não. Saindo daqui. Me prometeu uma galinha, eu quero uma galinha.
– Tá. Te dou uma galinha.
– Viva.
– Viva.





Ela & Ele no motel

12 08 2010

– Eu disse que era uma boa idéia uma escapadinha à tarde.
– É, vou ter que dar o braço a torcer dessa vez. Só que se eu voltar atrasada, minha chefe me mata.
– Mata nada, sua chefe é adepta da boa putaria. Lembra o último almoço lá no seu escritório? As coisas que ela e o marido falavam em alto e bom som? Até meu vô ficaria envergonhado, e o velho trabalhou em cais.
– De qualquer forma, a gente tem que ir. A pior parte agora é ir atrás das roupas…
– Pior parte nada, é quase um show à parte!
– Eu não acho minha calcinha.
– É, eu tô percebendo…
– Dá pra sair dessa cama e me ajudar a procurar? É sério. Não acho.
– Tá, tá… saia ali, blusa tá aqui, enroscou no meu pé, foi mal.
– Meus sapatos… meus sapatos na banheira, graças que tá vazia.
– Ó, seu sutiã ali no canto.
– Sim, mas nada da calcinha.
– Vai trabalhar sem, oras.
– Não dá pra ir pro trabalho sem calcinha!
– Lógico que dá. Eu nunca uso.
– HA HA HA, piada engraçadíssima.
– De qualquer forma, eu não me importaria em mandar um sms perguntando o que você está vestindo e receber de volta um dizendo que tá sem calcinha.
– E em outras circunstâncias eu ia adorar a brincadeira, mas hoje não. Que saco, aonde foi parar?
– Do tamanho que é, não vai achar nunca. Não rola passar em casa e pegar outra? Joga minhas meias aí pra mim. Tão em cima aí do baú dos infernos.
– Pega aí. Era só o que me faltava. Não quero largar minha calcinha aqui! Vai saber quem vai pegar nela e fazer sei lá o quê!
– Teoricamente, você não deveria se importar, já que não vai saber o que vai acontecer nunca. Embaixo da cama não tá. Posso saber por quê tá rindo?
– Desculpa, amor, mas você, assim, de meias, camisa e com o troço balançando, tá, assim… ai, desculpa, parei de rir, pronto, parei, parei.
– Pega minha calça aí na cadeira. E eu nem vou te responder nessa, porque tenho amor ao troço que tenho no meio das pernas.
– Não fica assim, amor, é um troço mais do que respeitável.
– Minha cueca.
– Oi?
– Não acho minha cueca.
– Vai trabalhar sem? Sensação de liberdade e tal. Tô começando a considerar ir sem a calcinha mesmo, a saia é comprida.
– Você não tá entendendo. Eu NÃO posso ir trabalhar sem cueca.
– Sua calça é jeans, ninguém vai nem perceber, e depois, só tem gente esquisita naquela escola mesmo.
– Você não tá entendendo! Já viu a calça? Já imaginou o que vai acontecer com meu pinto se eu passar o resto do dia com essa calça sem algum tipo de proteção na frente?
– Ih… fodeu.
– Fodeu é uma palavra que vai ser banida do meu dicionário se não achar essa cueca! Porque nunca mais o bicho vai funcionar!
– AH, NÃO! TRATA DE ACHAR ESSA CUECA olha, minha calcinha. Tava no colchão. Amor, quer ir com a minha calcinha? Tá, parei de rir, eu sei que é sério.
– Puta que pariu… bem que minha mãe falava pra sempre ter uma cueca a mais no carro.
– Achei que sua mãe sempre falava de ter papel higiênico no carro.
– É a santíssima trindade do motorista prevenido: extintor, papel higiênico e cueca. CADÊ ESSA PORCARIA?
– Ahn… olha pra cima.
– Pra que? Duvido que Deus vá se dar ao trabalho de achar minha cueca só pra que eu não interrompa p sagrado dever de crescer e multiplicar.
– Nesse caso já interrompeu, camisinha mandou oi. Sério, olha pra cima.
– Ai.
– É. Ai.
– Como infernos minha cueca foi parar no lustre?
– Sei lá, eu joguei em qualquer canto na hora!
– Caramba… que mira. Como a gente tira isso daí agora? Não, nem pensa em fica pulando na cama, o teto é alto, nem vai adiantar.
– E se chamar, sei lá, algum funcionário e pedir uma vassoura?
– Sim, claro, eu sem cueca chamo um funcionário e peço um cabo de vassoura pra tirar minha cueca do teto.
– Tá… humilhação pública descartada. Tá, eu tive uma idéia, mas tem que ser você, que é mais alto.
– Tenho medo de perguntar.
– Ó… no baú dos infernos ali… tem um vibrador, CALMA, DEIXA EU TERMINAR!, você pega o vibrador, se estica e tenta bater no lustre com ele, pra ver se a cueca cai.
– Você tá de brincadeira.
– Não. Aqui. NOSSA, QUANTA COISA, aqui, pega esse, parece ser o maior que tem.
– Eu não acredito que vou ficar pulando meio pelado numa cama de motel batendo um vibrador no lustre pra fazer cair minha cueca.
– Juro que não vou olhar. Vai.
– Tá… difícil, PORRA, não, tá tudo bem, é que eu quase caí. Deus me livre morrer de traumatismo craniano no chão do motel segurando um vibrador cor de rosa tamanho… que tamanho tem esse troço, aliás??? Isso não é normal!
– Sei lá… não tem marcado em algum lugar?
– Não… porra, isso parece um taco… se botar pra vibrar, a mulher vira batedeira de bolo.
– Dá pra se concentrar na sua cueca?
– Dá licença que quem tá passando vergonha na frente da esposa sou eu?
– Faz assim… tenta jogar essas coisas aqui, uma delas pode acabar fazendo a cueca cair.
– Tá… olha, ben-wa… você podia comprar umas dessas, né? Parece que na Tailândia elas conseguem até apagar cigarro.
– Eu li que conseguem cortar coisas também, então dá pra parar de analisar os brinquedos e jogar logo as bolinhas de vagina no lustre?
– Tá… uma, não deu… as da cordinha… não me olha assim, eu não tenho a sua mira.
– NÃO PRECISAVA TACAR EM MIM TAMBÉM! Tó. Vê se isso aqui faz cair, parece mais pesado.
– Ahn… que que é isso?
– Faço nem idéia, mas sinceramente, considerando peso e formato, tenho medo de saber. Vai, joga.
– Merda… não foi. Escuta, você sabe que a gente vai ter que pagar por ter usado as coisas do baú, né?
– Sei, mas pensa na experiência, quantas pessoas você conhece que podem se dar ao luxo de jogar brinquedos sexuais no lustre?
– Isso é pra ser um lado positivo? Eu nem entendi a frase! Medida desesperada agora.
– NÃO VAI TACAR O… e não é que funcionou?
– RÁ, sabia que vibradores podiam ter mais de uma função!
– É, esse tem três: orgasmo, batedeira de bolo e tirador de cuecas do lustre. Vai, termina de se vestir.
– Sim, sim, pronto… e a bagunça?
– Deixa, né? Motel tem staff pra isso… putz. Olha pra cima.
– Que foi dessa vez? AH, SÓ PODE SER BRINCADEIRA QUE O VIBRADOR TÁ NO LUSTRE!





Ela & Ele no mercado

9 08 2010

– Me explica de novo por que é que eu não posso guiar o carrinho.
– Porque você não segue a lista na ordem.
– Depois quem tem TOC sou eu.
– Existe uma razão pra se fazer uma lista de supermercado. Não é só suprir o que acabou em casa, é pra não sair por aí comprando qualquer porcaria. Igual esse negócio aí que você colocou no carrinho.
– Não é negócio, é grão de bico.
– Mas eu não como grão de bico. Nem você.
– Eu sei… mas eu vi uma receita que vai grão de bico que eu quero tentar.
– Ah, é? Qual receita?
– Uma que vai grão de bico. Shiu. O grão de bico fica.
– O grão de bico sai.
– Fica.
– Vai mofar na despensa e ninguém vai comer esse troço.
– Faz bem pra saúde! A gente devia incorporar na dieta.
– Depois a gente vê isso. Arroz, pegou o arroz?
– Peguei… molho… tem molho demais aí, não tem?
– Molho nunca é demais.
– Lógico que é. Excesso de molho estraga o gosto da comida. É que nem encher de sal.
– Sal, bem lembrado.
– Não tá na lista pra agora. Aliás, não creio que você dividiu a lista por grupos alimentares e mesmo assim não quer grão de bico.
– Nem você quer. Admita, só pegou porque a Luísa disse que fazia bem.
– Luísa é nutricionista, ela sabe o que fala.
– Luísa é neurótica, não nutricionista. Semana passada era a dieta das frutas, lembra?
– Lembro. A casa dela tava que era só kiwi pra todo lado. Leite, ok. Carne… putz, olha o tamanho dessa fila.
– Deixa por último então. Falta o que de verdura e afiliados?
– Só salsinha, na verdade. E uva. E maçã. E cerejas. Kiwi… não, kiwi não. Goiaba, jura? O cheiro deixa a cozinha insuportável.
– Eu deixo a goiaba se você deixar o grão de bico.
– Pega a goiaba.
– Agora você tá de pirraça.
– Ahan. Ei, a parte de doces.
– Tem um monte em casa já, não precisa de mais, e nem tá na lista.
– É, mas você tá levando quase o estoque do mercado inteiro de molho, por que não posso pegar mais doces?
– Pega mas não tantos então…
– Ah, é tantos, sim. A Lira também gosta.
– É, a Lira gosta de tudo que não é eu.
– Fato. E aí, encara a fila da carne, ou a gente vai de vegetarianos essa semana?
– Nem diminuiu… eu ligo pra minha irmã trazer, ela mora perto de açougue. Carne de açougue é mais gostosa.
– Nem tem diferença.
– Tem.
– Não tem.
– Tem, quer saber por quê?
– Não, dispenso, a explicação vai me fazer chorar. Vai colocando as compras aí que eu vou colocando nas sacolas.
– A gente podia pedir caixas de papelão ao invés de usar as sacolas.
– Oi?
– É, aí da próxima vez, a gente traz as caixas no carro. Não precisa de trocentas sacolinhas toda vez.
– Pode ser… termina aí que eu vou pedir as caixas pro cara lá.
– Ok.
– E o grão de bico fica.
– Sai.





Ela, Ele & a surpresa

6 08 2010

– Você tá com uma cara estranha.
– Que tipo de cara estranha?
– Aquela que você faz quando espera alguma coisa de mim. Invariavelmente eu não vou saber o que é, você vai ficar brava dizendo que mudou e eu nem reparei, e eu não reparei mesmo, vai brigar comigo e fazer greve de sexo por uma semana.
– Ah… é, assim… mais ou menos isso.
– Sabia.
– Mas não precisa de preocupar, não é nada demais… é que
– NÃO! NÃO FALA! Eu vou reparar.
– Duvido um pouco… não é tortura emocional dessa vez, amor, é que eu
– SHIU! Calma, só preciso de alguns segundinhos. Levanta do sofá. É, é sério, levanta. Deixa ver. Não é a roupa, essa roupa eu conheço.
– Conhece.
– Tá de pantufa, não pode ser sapato, a não ser que já tenha guardado… TAÍ, comprou a pantufa? Você usa salto até em casa, até sua havaianas é aquela com salto lá, e hoje tá sem. É isso?
– Tô, tô sem salto, não quero sobrecarregar a coluna, mas não era isso o que
– CALMA, tem mais coisa. Brincos?
– Não, são os mesmos que uso pra dormir desde sempre, que sua mãe me deu.
– Hum… mudou algo na casa? Acho pouco provável, você tem TOC.
– Não, tudo na mesma, se bem que mudanças a gente vai ter que fazer.
– Vai? Amém, a última mudança feita foi aquele quadro da enxaqueca.
– Falando nele, a Lira já me avisou que você cobre ele com um lençol quando eu não tô em casa. Pode parar com isso.
– Empregada fofoqueira…
– Não é fofoqueira, só não gosta de você.
– Igual sua mãe e sua irmã. A gente podia apresentar as duas! Formar um clube, MOSM: Mulheres que Odeiam o Seu Marido.
– Se não me deixa explicar, vou ser a presidente.
– Seu cabelo. Mudou o cabelo, que eu sei. Tá um tanto mais curto, ele costuma ficar na linha do sutiã. Eu sei porque sempre enrosco os dois quando tô com pressa.
– E quase me deixa careca. Cortei, hoje de tarde, mas… não é bem isso.
– Tá, desisto. Até porque, o que eu acho que é, se eu falar, você vai me fazer engolir o quadro.
– Fala. Juro que nem relo em você.
– Certeza? Jura mesmo? Não vai me bater com a Veja?
– Não.
– Tá… é que… você tá de moletom, não é muita base, mas… na cintura, tem um… recheiozinho na dobrinha aí… nossa, não vai mesmo ofender minha masculinidade.
– Não, não vou.
– Mas eu te chamei de gorda.
– Eu sei.
– Gorda. GOR-DA. Isso não é, tipo, blasfêmia segundo a bíblia feminina?
– Depende do caso. E você não me deixa falar. Toma.
– Um cartão? É divórcio? Se for, eu não quero o quadro, você tá gorda mesmo e sua mãe parece o Danny deVito.
– Abre.
– “Feliz dia dos pais”?
– Amor… estamos grávidos.
– Estamos não, a gorda é você.
– NÃO ME CHAMA DE GORDA!
– VOCÊ DISSE QUE NÃO IA ME BATER! É sério? Certeza?
– Dois exames de sangue e dez de farmácia de certeza. Tão em cima da mesa, pode pegar pra ver. Menos os de farmácia, já que eu tive que… bom, fazer xixi neles.
– Eu vou ter um filho…
– Ou filha.
– Ou ambos. Gêmeos, quero dizer. Uau. Um filho.
– Viu…
– O que?
– Minha mãe não parece o Danny DeVito.
– Parece. Desculpa, mas parece.





Ela, Ele & o quadro

4 08 2010

– E agora?
– Não… ainda parece torto.
– Espera… deixa eu pendurar pra ver. Torto onde? Tá retinho. Alinhado com a mesinha, olha bem.
– Tá alinhado com a mesinha, mas não sei… não parece centralizado. Tira lá e segura de novo.
– Olha o tamanho desse quadro. Olha o peso desse quadro. Tem pelo menos meia hora que eu tô segurando esse quadro sem parar. Jura por Deus que tenho que pegar o quadro de novo?
– Para de falar “quadro” e vai lá. É rapidinho, só quero deixar tudo certinho pra dormir em paz.
– Tá, tá, tá… deixa eu tirar isso daqui… pronto, puta troço pesado… e agora?
– Levanta um tiquinho.
– Um tiquinho quanto?
– Um tiquinho, ué.
– O meu tiquinho não é igual ao seu. Tiquinho não serve como medida.
– Lógico que serve. Um tiquinho, um tantinho, um punhado.
– Seu punhado de sal é um dedinho, o meu é encher a mão. Não serve de referência.
– Então comparar meu punhado de sal como um dedinho também não é. Qual dedo, e dedo de quem, sem contar que é o dedo inteiro ou só a ponta? Tá, entendi seu ponto de vista. Levanta… uns quatro dedos… seus dedos, não meus. Deitados, sabe?
– Sei, tá, essa é uma medida que eu posso usar. Pronto. Tá bom, né? Posso pendurar?
– Não, ainda não… volta pra altura de antes. Não ficou bom assim.
– Tá… e?
– Ai, não sei… alguma coisa não tá colaborando… ainda parece fora do lugar.
– A gente podia desistir e jogar o quadro pela janela, que tal? É feio mesmo.
– Não é feio. É Op Art.
– É feio e dá dor de cabeça. E é pesado, posso pendurar?
– Espera. Acho que já sei. São esses vasos nas laterais da mesa. São eles que impedem o quadro de ficar centralizado! Empurra um pouco o vaso da direita.
– Tá brincando, né? Eu tô aqui, arrebentado meus braços pra segurar esse quadro e você quer que, além disso, eu arrume o vaso? Por que você não empurra?
– Eu tenho que ficar aqui de olho pra ver se fica tudo certo.
– Ok, beleza, com qual das minhas três mãos você quer que eu empurre o vaso?
– Ih, que mau humor… faz assim, pendura o quadro, a gente alinha os vasos, aí arruma o quadro.
– Eu devia ter casado com alguém sem TOC.
– E eu devia ter casado sóbria. Anda, só o da direita… isso… NÃO, empurrou demais… espera… tó, mede com a régua. Não fica bufando, é falta de educação. Aí, pega a medida da esquerda e bota no da direita… pronto, de volta ao quadro.
– É a última vez que eu faço isso. Se me pedir pra arrumar outra vez, peço o divórcio. E te deixo o apartamento, que pelo menos assim não preciso pendurar nada em lugar nenhum.
– É a última, juro… só precisa um pouco pra esquerda…
– Um pouco quanto?
– Um tiquinho… meu tiquinho, não o seu. Não suspira, a frustrada com a situação sou eu.
– É, ahan. Pronto. Pendurei. Chega.
– Vem ver como ficou.
– É… parece tudo alinhado… como antes. Agora a gente pode sair pra jantar?
– Pode… amor, só uma coisinha…
– O que?
– Acho que não gostei do quadro.





Ela & Ele no escuro

1 08 2010

– Acabou a força.
– Eu notei.
– A força. Caiu.
– Eu percebi. Cinco minutos pra acabar o filme, puta falta de sacanagem, dá pra largar meu braço? Vai cortar minha circulação.
– Não, não dá. Eu tenho medo de escuro.
– E eu não sei? Meu braço. Tá apertando.
– Liga lá.
– Lá onde?
– No… como chama mesmo? Não faz essa cara.
– Tá escuro, como você pode saber a cara que eu tô fazendo?
– Conheço sua cara quando eu esqueço o nome de alguma coisa. Aquela cara de “burra pra caralho”.
– Na verdade é algo mais “não tenho bola de cristal, inferno” MEU BRAÇO!
– NÃO GRITA COMIGO!
– NÃO TÔ GRITnão tô gritando, e não me belisca, poxa. É CPFL. E não precisa, seu vizinho é pior que você, já deve ter ligado.
– Sim, mas eu não sou meu vizinho e quero a força de volta.
– Quer que eu faça o quê? Cuspa vagalumes?
– TEM BARULHO AQUI!
– Não pula em mim, criatura histérica! Tem vela na despensa, eu vou pegar!
– Isso, vai, NÃO VAI! Não me deixa aqui!
– Então vem comigo!
– Não… tá escuro…
– E você quer que eu pegue a maldita vela como?
– Usando A Força?
– Mas tá sem força.
– A Força de Star Wars.
– Igual a que você tá fazendo no meu braço. Quer que eu deixe ele aqui com você, enquanto pego a vela?
– Haha, gracinha. Vai, mas volta logo.
– Conta até trinta, antes de vinte e nove, eu tô de volta.
– Então por que trinta?
– Oi?
– Se você vai voltar antes de vinte e nove, por que contar até trinta?
– Só… só me espera. E conta. Ó. Celular aqui, usa de lanterna.
– Tá… mas volta logo. Um… dois… três… não é meu celular esse… cinco, seis, sete, ih, tem mensagem não lida… nove, dez, onze, doze, treze, catorze… quem é Luísa?, quinze, dezesseis, dezessete, que bar, meu santo?, vinte, vinte e um, ah, eu vou arrebentar esse filho da mãe quando a energia voltar, vinte e cinco, vinte e seis QUE QUE É ISSO???
– CALMA, NÃO PRECISA ME BATER! Sou eu, sou eu! Ó, ó, velas e isqueiro, ó, pronto, acendi, luzinha, sossega.
– Quem é Luísa e que bar é esse que foi tão legal ontem?
– Não… sei…?
– Não sabe? Quer ajuda pra lembrar?
– Mas… eu… não saí de casa ontem.
– Então como a Luísa achou a noite tão boa?
– Considerando que eu não sei quem é Luísa… NÃO ME BELISCA!
– NÃO SE MEXE TANTO! VAI APAGAR A VELA!
– A vela tá na mesinha, não vai apagar enquanto eu tento não ser acertado por você! Cacete, como consegue essa mira no escuro?
– Prática. Anda, conta logo.
– Deve ser mensagem errada. Acontece. Um numerozinho errado e pronto!, a Luísa mandou a mensagem pra quem conheceu ontem, e a pessoa não vai receber. Poda ser o grande amor da vida dela, e ela não vai saber, porque a mensagem vai ficar sem resposta. Se ela não insistir, pode ter arruinado toda a vida amorosa e possivelmente a auto-estima. Tragédia. Apaguei a vela.
– EU NOTEI! Acende, anda.
– Pronto. Tá, resmungou por que?
– Fiquei com dó da Luísa agora, coitada.
– É mensagem errada, a gente nem sabe quem essa aí é.
– Mesmo assim, o futuro que você imaginou pra ela não foi legal. Coisa feia, isso!
– Coisa feia eu ter montado uma situação hipotética sobre uma pessoa que a gente não conhece e nem sabe se merece nossa compaixão?
– Toda mulher que espera um telefonema merece compaixão. Ou condolências. Tanto faz.
– Deixa pra lá. Vem cá. Aproveitar a luz de velas ah, legal, agora a luz volta. Pelo menos tem o final do filme.
– Não, agora espera.
– Esperar o que?
– Vou ligar pra Luísa.
– Vai o QUÊ?
– Ligar pra Luísa, coitada. Explicar o que aconteceu. Eu volto já, rapidinho!
– Tá, vai. Enquanto isso eu fico aqui, sozinho… abandonado pela outra. Minha mulher foge de mim pra ligar pra desconhecidas. Ih, acabou a
– ACABOU A FORÇAAAAA!